Narciso Doval, Ronaldinho Gaúcho e uma traição com o Rio

Lúcio de Castro

Era mais um domingo daqueles. Clássico. De almanaque. Um fim de tarde sem definição possível, o sol descendo pelos Dois Irmãos e mergulhando na água. Dia daqueles para sempre lembrar o sentido real da vida, o significado e o valor de todos nós nessa passagem, recordar Oscar Niemeyer que sempre manda se olhar o céu, para que nunca se esqueça o quão pequenos somos...

A resenha correndo frouxa, o bom da vida ali, fluindo. Naquela tarde, por alguma conjunção astral, três gerações estavam ali, resenhando pra mais de horas. Como manda o ritual, os mais novos falando menos, ouvido atento aos mais velhos. Algumas histórias repetidas mil vezes, a cerveja colaborando pra repetição, cenas do Leme ao Pontal, personagens da orla...

Não faltou a lembrança daquela tarde de 89, quando a velha guarda parou o Alceu e questionou seu apoio ao Collor, ou o dia em que perguntaram ao Chico sua opinião sobre o Carlinhos Brown. Os parabéns para Claudia Ohana pela Playboy, com as devidas considerações dos detalhes ecológicos...A briga mais famosa da orla carioca, quem ganhou? Pinduka, Virgílio? Ninguém nunca bateu o martelo, tampouco no domingo...O desprezo com a turma de emergentes que agora acha chique beber espumante na praia, muitos risos com tanta falta de identidade com o cenário, e os jornais ainda dão corda...

De repente, o assunto caiu numa lenda de Ipanema e não mais mudou. Os mais novos ouviram falar muitas vezes, queriam ouvir mais histórias, comprovando que foi o homem e ficou a lenda: Narciso Doval, o argentino mais carioca da história (Lan é uruguaio, argentino, italiano e acima de tudo carioca).


A tarde caiu, a noite já era alta, e tome história de Doval. Uma das vidas mais intensas que se tem notícia. Centroavante que como poucos conjugava técnica e coração, virou ídolo do Flamengo e depois Fluminense. Mas o assunto ali era o Doval de Ipanema. Personagem de Ruy Castro em "Ela é Carioca, Uma História de Ipanema", onde o autor lembra que o Gringo Dova parava as areias com o rastro de garotas de Ipanema atrás do galã louro, de olhos azuis. Com os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle formavam o que as meninas chamavam de "Trio Colírio".

Era um tempo glamouroso. E Doval era o glamour em pessoa. Me arrisco a dizer, correndo o risco da omissão, que o único jogador de futebol que pode ser comparado em glamour e presença na vida da cidade a Doval foi Heleno de Freitas, com Paulo César Caju correndo por fora. As histórias vão correndo. Doval foi dos precursores do futevôlei, era figura certa na velha Montenegro (jamais me acostumarei a chamar de Rua Vinícius de Moraes, perdão poetinha), ali perto do posto nove.

E tome história. Como a do dia em que o Gringo adentra a areia com uma bandeira do Botafogo...Ninguém entendeu nada, um espanto geral. Estaria louco? Uma chamada providencial dos amigos para o mar, era preciso entender aquilo. "Que isso, amigos, tou saindo com a irmã de um chefe de torcida do Botafogo, forte pra caramba, preciso fazer uma média", diante da risada geral. Suas molecagens levavam todos a loucura. E se passava do limite, continha os mais exaltados: "ei, sou ídolo do Mengão, deixa disso", e ria... Das tantas vezes que precisou nadar para fugir de amantes, ou até de maridos enfurecidos, e ia parar no Arpoador...

Alguém propõe a comparação, se Renato Gaúcho ou Edmundo na mesma praia marcaram época também. A imediata e sábia negativa de um sábio da velha guarda não deixou dúvidas. "O gringo era parte da paisagem, não precisou comprar parte da paisagem, levar elenco de apoio, aspones, séqüito. Era ele, seus amigos e pronto, era da casa, local", encerrou o sábio. Ídolos, personagens da cidade.

Duas coisas além do recente domingo espetacular me lembraram Doval. A chegada de Ronaldinho Gaúcho ao Rio e a ânsia dos jornalistas-manjas é uma delas. Uma traição com a história dessa cidade, que nunca se preocupou em urubuzar a vida de ninguém. Quem quiser que se debruce sobre a crônica da cidade do século XIX. A chegada da corte, a vinda de famosos por essas bandas. Recomendo os relatos de Victor Jacquemont ou de Von Leithold, estrangeiros que falaram da vida carioca depois da chegada da corte. Para não falar no cronista carioca maior, aquele que levou a cidade no nome adotado, João do Rio.

Sempre encontrará a indiferença do sujeito daqui por querer fuxicar a vida dos famosos. Por ofício, pela nobreza que pode ter a profissão de um jornalista, me dói sempre que leio um manja, a maior traição possível ao papel de um jornalista. Mas como amante do meu cantinho, a dor é maior ainda. É a tradição de uma cidade desrespeitada, uma traição com a história da cidade e com o DNA dos seus habitantes.

A outra é a constatação de que em outubro serão vinte anos sem Doval. Entre tanto personagem menor homenageado por aí, livro, documentário, placa, estátua, o Gringo merece algo maior. Em Ipanema, claro. Imortalizar um dos maiores cariocas de todos os tempos é uma obrigação dos filhos de São Sebastião.

PS- No forno: brevemente, na tv e aqui no blog, trocaremos algumas ideias sobre o Haiti, onde estive fazendo um especial que vai ao ar em breve.